Durante muitos anos da minha infância, ou
melhor, durante toda a minha infância, eu fui completamente
apaixonada pelo filme “A Bela e a Fera”. Eu ficava
fascinada com todo o enredo, as canções, os personagens, os
cenários... O encantado me transportava para lugares inimagináveis
e eu ficava vidrada durante horas na frente da TV. Era impossível
chegar da escola e não assistir, pelo menos uma vez, ao vídeo do
filme.
O que mais despertava o meu fascínio era o fato de uma história
conseguir ser repleta de peculiaridades que eu não entendia muito
bem na época, mas que com o tempo fui percebendo que compunham
muito mais do que um simples conto de fadas. Amor, sociedade,
preconceito, realidade, sonho e magia eram cuidadosamente narrados
sobre um plano de fundo mágico e surreal que despertava e aguçava
os meus maiores sonhos e ideais.
A história da garota que todos achavam estranha por possuir hábitos
e sonhos que fugiam da realidade dos demais moradores da pequena
aldeia se une à história de um monstro, que na verdade possuía
muitas qualidades e só precisava ser visto de uma forma diferente.
Isso tudo era fantástico demais!
Este é o
mais belo de todos os contos que a Disney já produziu e, para mim,
se tornou ainda mais belo agora do que quando o vi pela primeira
vez há anos atrás. A
fascinação que guardo por esta obra, agora vai além da mera
diversão e encanto mágico. Agora consigo ver mais claramente o que
o filme possui de tão especial, seja por sua densidade moral e
romântica ou por sua energia esplêndida, que lhe garante os mais
fantásticos números musicais e cenas orquestradas com beleza e
originalidade.
Afinal,
quem não se lembra da gigantesca festa que Bela recebe em sua
primeira noite no castelo? Ou da eterna valsa entre Bela e Fera, ao
som da magnífica “Beauty and the Beast”, um dos temas
mais belos do cinema.
Muitos
acreditam que ser criança torna tudo mais fácil. Eu acredito que,
ter sido criança na minha época, tornava tudo mais fácil e
encantador. Eu tinha a mente desprovida de qualquer preocupação ou
aborrecimento, o que facilitava dar asas a minha imaginação. Penso
que talvez seja isso que esteja faltando nas crianças de hoje. O
que é um fato extremamente lamentável.
A imaginação vem sendo atrofiada dia após dia com o descaso, a
falta de preocupação com a infância, o trabalho infantil, os
programas de TV inadequados, os jogos eletrônicos que fazem as
crianças se tornarem cada dia menos criativas e mais alienadas,
enfim, fatores que só fazem mal a vida daqueles que farão parte do
tão sonhado e esperado “futuro”
tecnológico.
Era tão bom poder assistir a filmes que ensinavam virtudes e bons
conceitos. Hoje, ninguém quer mais saber disso. Nem os pais, - que
estão mais liberais do que nunca-, nem muito menos os filho-que
aparentam ter mais idade do que propriamente possuem. Prova disto?
É só lembrarmos o percentual de meninas grávidas aos 12 anos ou dos
jogos onde a violência é explícita e altamente
contagiosa.
A
inocência está perdendo seu espaço e seu brilho e está quase se
extinguindo do cotidiano das crianças de hoje, e o mais pitoresco é
que nada está sendo feito para contornar essa situação que se
estende e que continuará se estendendo até que se faça algo de
verdadeira significância.
Mas voltando ao ponto central do qual parti, não posso deixar de
enfatizar que “A Bela e a Fera” foi
o primeiro e único (pelo menos até agora) desenho a ser indicado ao
Oscar de Melhor Filme, e também foi o primeiro longa de animação a
ultrapassar a barreira de US$ 100 milhões em sua bilheteria.
Em comemoração ao seu 10º aniversário, teve reestréia nos cinemas
de todo o mundo (Brasil inclusive), numa edição especial que inclui
um novo número musical: a canção “Human Again”,
prevista para ser incluída no filme original, mas que acabou
ficando de fora.
E
o melhor de tudo é que se passaram dez anos, mas mesmo assim o
filme não envelheceu. Ainda mantém sua magia, seu bom humor, seu
ritmo e suas excelentes canções.
Outro
ponto que pretendo abordar nesta crônica apaixonada é a beleza
inferior, que muitas vezes é subjugada. E tal mensagem é mais atual
do que nunca, em um tempo extremamente materialista e imerso numa
sociedade onde seus indivíduos estão cada dia mais julgando e se
distanciando um dos outros. Este filme prova que, muitas vezes,
enxergar além da rotineira aparência pode ser inovador e
imensamente gratificante, pois podemos descobrir qualidades
inigualáveis em pessoas que, normalmente, passariam despercebidas
aos olhares “recheados” de uma etiqueta que rotula,
julga e atribui um pré-conceito ao que é “bom” e ao que
não é. Vale lembrar que nem sempre o comum é o melhor. O diferente,
o “anormal”, o “feio” pode ser tão bom
quanto.
O filme
tem identidade, beleza, profundidade e possui algo a dizer notável.
Seu retrato sobre a ignorância no personagem de Gaston é
superficialmente engraçado, mas introspectivamente ácido. Cai como
uma luva para identificar esse defeito humano mais presente do que
nunca na sociedade em que vivemos.
A história
de amor entre Bela e Fera é tão singela, honesta e comovente que
acaba por nos tocar ao seu fim quase trágico, em um clímax
derradeiramente emocionante que me faz chorar até hoje. É como
voltar a ser criança. É maravilhoso poder assistir, com prazer e
agrado, uma clássica animação que será eternamente a mais tocante
de todas que eu tive o prazer de assistir.